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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

AINDA SOBRE CYRIOS ALEGRES

“Quando a berlinda de Nossa Senhora se aproxima o povo corre para as calçadas. Passam extensas filas de homens abraçados uns com os outros, em bamboleios, gingando, suarentos e bebidos. Vão descalços, como a maior parte dos devotos. Uns com promessas, muitos por prazer. A multidão puxa a berlinda. Numa promiscuidade e num atabalhoamento, que só a fé justifica. Todos se prosternam. As irmandades continuam rezando, distribuídos em alas. Tão extenso é o Círio que não será exagero em calcular em mais de um quilômetro a distância que medeia de uma outra extremidade do préstito”.

Ernesto Cruz - Belém, aspectos geo-sociais do município (1945)

Vou analisar alguns exertos do texto:
Passam extensas filas de homens abraçados uns com os outros, em bamboleios, gingando, suarentos e bebidos.
Pelo que me parece Ernesto Cruz descreve a Marujada que segundo outros relatos era um dos espetáculos mais imprecionantes do Círio. Tradicional padroeira dos homens do mar, estes compareciam em peso à festa e sempre em torno das simulações de barcos, ou mesmo canoas que portavam à cabeça e animados por bebidas que possuem espírito simulavam com "bamboleios e gingados" o movimento das águas revoltas.
Na imagem acima é possivel ver um destes barcos cercados de homens vestidos de marinheiros, é uma versão lite daquela "barbara" descrita por Cruz, que foram logo sumariamente exterminados pelas reformas de D. Irineu Jofily.

Vão descalços, como a maior parte dos devotos.
O habito de acompanhar descalço parece cada vez mais restrito apenas aos puxadores da corda.

Uns com promessas, muitos por prazer.
Atenção: UNS por promessa; MUITOS POR PRAZER. Veja-se aí acentuada a dimensão da FESTA, DO ÓCIO, POR ALEGRIA, POR MERO PRAZER.
Prazer de encontrar sua identidade como um conjunto de pessoas que tem algo em comum, alguma coisa que os une, que compartilham.

Numa promiscuidade e num atabalhoamento, que só a fé justifica.
Esse dai eu confesso que não entendi.
Fé justificando a promiscuidade?

Oba!!!!
Homens de muita fé vamos todos para o Bataclã!!!

Esta preciosidade esta no Blog Fragmentos de Belém do Geologo Igor Lima que além de procurar petróleo no fundo do mar encontra raridades incríveis nas camadas profundas da internet, vale apena passar por aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

VELHOS ALEGRES CYRIOS

O Círio volta a passar, cortado, amputado, dilacerado, hoje do Círio quase sempre se destacam a dor, o sacrifício, o sofrimento dos promesseiros.
Mais nem sempre foi assim, até que a imprensa urubu, que só se interessa por tragédia, morte, sofrimento e destruição, para manter as pessoas em estado de sítio mental, passasse a contruí-lo desta forma.
O Cyrio era uma festa, alegria, encontro de um povo com sua identidade, com seu DNA mitocondrial, aquele que herdamos de nossa mãe, onde, portanto, éramos todos irmãos e festejavamos e bebíamos e comíamos e dançamos a marujada, afinal a Virgem de Nazaré foi sempre protetora dos navegadores. Vasco da Gama, antes de sua transviagem que girou o cabo das Tormentas e torno-o da Boa Esperança, foi à Nazaré pedir boa viagem.

Eu sempre vi o Círio como festa, era uma festa na casa do meu avô, a chegada da corda era anunciada: "lá vem ela" e iam todos às janela. As mulheres com terço, minha bisavó colocava até a mantilha, os homens com copos de cerveja ou de uisque.
Passavam as autoridades acenando, os bispos rezando e depois triunfante belaberlinda flutuando, navegando levíssima naquela espuma de gentes.
Na corda os promesseiros gritavam animados pelos dobrados das bandas que sempre tocavam o "lírio mimoso", algazarra, alegria, êxtase que explodia em palmas. Uma prima de mamãe, com voz de soprano puxava um "Viva Nossa Senhora de Nazaré" em tom agudíssimo que superava aquela barulhança e paralisava todos:

VIVA!!!

Ela prosseguia:
VIVA A MÃE DOS PARAENSES!
Eram menos a responder, o apito do delegado Orlando Souza fazia girar a roda da arrebatadoura-arrebentação.
As mulheres ainda choravam, os homens giravam a cascavel de gelo no copo do uisque Cavalo Branco.
As crianças disparavam a brincar com seus brinquedos de miriti.
Meu avô pedia um uisque, só bebia depois que a santa passasse.

Tempos depois começaram a maldar, dizer que aquela alegria do pessoal da corda mão era vera. Era da parte do demo. Era orgia provocada pela "mardita de Abaeté" que dos fundos das canoas paradas no Ver-o-Peso subia até as cabeças por canecos de alumínio e potes de barro e a seu modo cumpriam o conselho bíblico de dar de beber a quem tem sede. Aquela água milagrosa saciava a sede dos espíritos com exuberante alegria e reconfortava os corpos.

Quando tudo isso quedou-se quebrado com os potes de barro e finou-se esta alegria primeva, insubordinada, indígena.

Foi então inventado o promesseiro sofredor, o coitadinho.

Quem já viu alguém sair do médico com o parecer: "vocês está curado, leve vida normal" pagar a consulta chorando de tristeza?
Só se for de emoção, alegria.

Quem, vivendo anos pagando leoninos juros bancários, no dia que se liberta deles, sofre profunda depressão?

O sentimento do promesseiro que acredita ter recebido um milagre é de alegria.
Pagar a dívida-promessa é um ato de dignidade, de altivez, se for difícil, heróico.
O desafio do promesseiro é o mesmo do atleta: chegar, vencer, cumprir sua promessa.
Por que nós tratamos os atletas com adimiração, e os promesseiros da corda com piedade?
Por que dos atletas se valoriza mais os sorrisos e a comemoração da vitória do que as dores, sem as quais não se vence?
Por que vemos atletas como heróis, apesar de sofrerem tanto, de levarem vida espartana enquanto os promesseiros tratamos como coitadinhos?
Se eles estão alí é porque acreditam que venceram, que conquistaram uma graça por intercessão da Senhora de Nazaré e vêm publicamente manifestar, pagar sua dívida, sua promessa feita por livre e expontânea vontade.

Infeliz, coitadinho sou eu e tantos de nós que fizemos promessas para ganhar sozinhos a mega-sena acumulada e não fomos atendidos.

José Verríssimo um dos homens mais lúcidos que nasceu nesta terra achava o Círio bárbaro, grotesco, defendia que "para honra e glória de nossa civilização o Círio deveria ser extinto".
Por outros caminhos o círio de hoje é mais "civilizado", menos "bárbaro", do que Verissimo condenou, agora movido a água benta em vez de cachaça.
Mas nesta contenda eu fico com Oswald de Andrade no Manifesto Pau Brasil:
BÁRBARO E NOSSO.

P.S.: Depois do promesseiro-coitadinho surgiu o promesseiro-espetáculo, aquele que faz de tudo, até sofrer, para ser flagrado palas cameras de tv.

Obs: reconheço que o texto está reducionista, o objetivo é enfatizar que o "promesseiro sofredor" é uma construção recente da mídia, possivelmente quando o Círio começa a ser transmitido pela tv. Antes a dimensão da festa, da alegria,predominava.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A MAIS ANTIGA IMAGEM DO CÍRIO

Foi publicada na Revista Puraqué em 1878. Foi no primeiro Círio Civil, realizado sem a autorização do Bispo Dom Antônio de Macedo Costa. A esquerda e abaixo frades dão vaia e botam língua para a procissão. Todos os elementos que contituem o Cirio já podem ser observados: carro dos anjos, carro de Dom Fuas Roupinho, escaler do brigue São João Batista, Berlinda, no centro da gravura, ainda sem a corda.

O antigo carro dos foguetes abolido por "questões de segurança" apesar de nunca ter causado nenhum acidente vem na frente ostentando a bandeira do Império do Brasil. Logo atrás, figura também abolida no de Belém, mas ainda presente no da Vigia, o "Anjo do Brasil" carrega um estandarte.

O micro-filme desta imagem encontra-se no Acervo Vicente Salles da UFPA que foi por mim selecionada quando contratado pelo IPHAN para pesquisar a Iconografia do Círio para o processo de declará-lo Patrimônio da Cultura Brasileira.

Na ocasião li anúncios de fotógrafos anunciandio fotos do Círio deste mesmo ano, seriam o primeiros registros fotográficos do Círio, anda no sec. 19.
Fica o desafio para o Igor do Fragmentos de Belém.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Duciomar fora do Círio, como foi Figueiredo fora do Círio

No início dos anos 80 Belém viveu um dos Círios mais agitados, enquanto Bispos paraenses, Dom Alano Pana de Marabá e Dom Estevão Cardoso de Conceição do Araguaia estavam sendo processados pela Lei de segurança Nacional, sob protestos da CNBB e da Sociedade Civil brasileira.
O Presidente Figueiredo vivendo o drama da queda da populariadade do regime militar, em estratégia marqueteira vem acompanhar o Círio de Nazaré.

Isso irritou profundamente os setores democráticos da sociedade paraense e aqueles da igreja, que não a queriam junto com torturadores e agora, também corruptos.
Nas paroquias comandas por vigários progressistas inicio-se a campanha: Figueiredo Fora do Círio, logo aderiram DCE, Sindicatos, entidades civis, religiosas como CPT, IPAR, etc.
Na manhã do dia da trasladação iniciou-se distribuição de panfletos nos pontos de chegadas de romeiros: terminal rodoviário, portos e começaram as prisões.
Na noite da trasladação e no dia do Círio intensificam-se as panfletagens e o pau cantou com mais vigor, estudantes, políticos, sindicalistas seminaristas, padres, entre eles, se não me falha a memória, Monsenhor Posidônio, que administrou a arquidiocese de Belém enquanto não havia Bispo nomeado.
Resultado, amadureceu-se em Belém a ideia que a velha e demagógica promiscuidade entre poder e religiosidade popular ficavam bem para Sucupira, não para um Brasil que se queria novo e democrático.
Foi assim que as a famosa corda das autoridades, o penúltimo degrau simbólico, aquele que ficava um pouco abaixo dos pés da Virgem, à frente apenas dos Bispos, foi suprimida e os governantes passaram a assistir a procissão dos palanques. Foi assim com Jader, Gueiros, Almir, Jatene,

Ana Júlia, já nem tanto, se deixou seduzir pela tentação populista de carregar a imagem da Santa.
Os prefeitos mantiveram a mesma discrição, Edimilson, que pelo que sei não professa fé religiosa, também caiu na tentação do diabo do marketing.
Passa dos limites da falta de escrúpulos o atual prefeito de Belém, que segundo conta nem católico é, se aproveita da imagem da Nossa Senhora de Nazaré apenas para se expor à mídia e confundir os ingênuos, para produzir imagens e veicular em seus programas eleitoreiros.

Mas o problema não é dele, é da igreja que permite que ele nos insulte desta maneira.
A Igreja que critica a corrupção e faz campanhas pelo voto consciente dá um mau exemplo permitindo que um cidadão que foi condenado por ter falsificado diploma de médico, que responde inúmeros processos na justiça, desde aqueles referentes a fraudes na compra da merenda escolar, problemas de atenção básica de saúde, licitações, obras realizadas sem cumprimento das exigências ambientais, etc, etc, etc. Além dos maus exemplos na vida pública, outros aspectos de sua vida não são exemplo a ser seguido, dentro dos padrões religiosos.
Queria que algum especialista em ética e moral cristã, me apontasse em qual fundamentos Cristão é exemplar o governo de Duciomar Costa?
Meu pai foi da Diretoria da Festa, criança acostumei-me com os simbolismos no trato com a imagem de NSN: chegada a Berlinda o presidente da Diretoria desaparafusava a imagem e entregava ao vigário de Nazaré, este a conduzia ao arcebispo que então erguia a imagem.
Logo erguer a imagem da Virgem era privilégio dos bispos.
DUCIOMAR FORA DO CÍRIO.
O CÍRIO É DO POVO COMO O CÉU É DO AVIÃO.

P.S.: A ilustração na parte superior é um quadro do artista plástico José Simões que demontra a insatisfação que causava em Belem a apropriaçao do Círio pelos políticos, que aparecem no primeiro plano, a Berlinda lá atras bem pequenina. No canto inferior direito Jesus passa desapercebido.
Desculpem a qualidade da foto, do blogueiro que vos escreve.

domingo, 9 de outubro de 2011

Comandante de Círios

Durante décadas com o apito, ele comandava o andar e o parar da corda, era tão simples.
Quem se lembra do delegado Orlando Souza?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Troque seu veterinário por um cachorro de cera

Quem tem cachorro sabe quanto custa manter o nosso maior maior amigo.
Antes se conformavam com um osso, agora tem que ser ração com alto teor protéico para reforçar os ossos manter o pelo lustroso.
Visitas semestrais ao veterinário, vacinas, vermífugos,vitaminas e mesmo assim pode haver surpresa.
Foi assim que o meu valente Comoteu viu-se desenganado, tinha que ser hospitalizado, radiografado, esterilizado, centrifugado, um orçamento de quase R$ 1.000,00. Desisti.
Indo para o Fórum Landi, passando pela Casa Círio, vejo na vitrine exposto em cera uma cópia do Comoteu, parecia feita por encomenda, igualzinho. R$ 10,00. Comprei.

Desde então a saúde de Comoteu tem progressos diários, assim se no dia do Círio alguém me vir com esta cera aí da foto, estarei pagando minha promessa.

P.S.: Comoteu é uma homenagem ao Comoteu, cachorro do Seu Chico empregado da olaria do meu avô em Benfica, quando alguém perguntava pra ele como era o nome do animal e esperava que viesse de lá: tigre, leão, rompe-ferro, trovão; nomes de cachorro daquela época, Seu Chico respondia:
- Comoteu
- Como?
E pausadamente:
- O nome dele é C O M O  o T E U.
Quem entendia esboçava um sorriso amarelo, quem não, paciência.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Quem mandava cortar a corda do Círio?

Durante anos a Diretoria da Festa Nazaré, por uma obsessão de fazer o Círio chegar na hora, mandava, ou fazia vista grossa deixando que cortassem a corda, as vezes até contra a vontade do arcebispo, se lembram daquela vez que até o Dom Zico ficou aborrecido.
Pois é a moda pegou, agora é mais quem quer cortar e a Arquidiocese de Belém, esta fazendo, muito acertadamente, uma campanha para preservar este símbolo da devoção popular dos paraenses.
Uma dica para os pesquisadores do fenômeno do Círio, comentava-se, naquele tempo, que estes diretores faziam isso porque as redes de nacionais televisão não permitiam longas transmissões locais, que prejudicavam os patrocinadores naicionais, tais diretores davam assim, uma mãozinha.