O país dos coitadinhos, da geografia da fome, da seca, do retirante nordestino.
A pobreza foi, quase sempre, a matéria-prima da nossa criação artística.Quando nos tornamos mais urbanos que rurais, a violência das cidades, a favela, a invasão, o narcotráfico, passaram a ser a nossa principal auto-referência.
Se isso tudo tem tido o propósito de denunciar nossas iniqüidades, também nos vem cegando para nossas virtudes.
Outro defeito nacional foi o menosprezo pelo nosso passado, os personagens da nossa história foram sempre vistos como medíocres ou violentos; bons eram os heróis americanos, aliás nós não nos víamos como americanos, mas como sul-americanos sub-americanos; e não como habitantes do novo continente, do novo mundo, do novo, com todo o significado que isso pode ter.
Ah, se os franceses ou os holandeses tivessem derrotado os portugueses nas invasões e tivéssemos sido colonizados por eles!
Este estado depressivo se manifesta na descrença nas instituições políticas e democráticas, achamos que safadeza e corrupção - e a grande imprensa parece se esforçar em demonstrar isso - são criações brasileiras, não percebemos as máfias, os golpes, os trambiques nos governos dos países do lado de cima do planeta.
Nem percebemos quantas coisas estão mudando nesta terra descoberta por Cabral.
Não percebemos que hoje a obesidade é um problema de saúde pública mais presente que a desnutrição. ( O que já era fato desde o lançamento do Fome Zero). Que em breve, pela mudança da nossa pirâmide etária, mesmo não tendo resolvido nossos problemas na educação, escolas serão desativadas transformando-se em abrigos para idosos (como na Europa), sinal do aumento na expectativa de vida.
Que a introdução de tecnologia de informação, com a urna eletrônica, tornou o processo de apuração eleitoral da democracia brasileira o mais confiável e eficiente do planeta.
Pois é, será que estamos preparados para pensar-mo-nos diferentes?
Pois é, será que estamos preparados para pensar-mo-nos diferentes?

