Antes, uma história de Belém anos 1950.
Ele queria ser bailarino, ator, spala de orquestra ainda vá lá, mas a mãe foi inflexível:
- Vai ser médico conforme prometi a seu pai!
Foram anos de padecimento até a formatura no Teatro da Paz. Dia seguinte da colação já estava empregado na Santa Casa, um horror, aqueles porões fétidos, aqueles corredores intermináveis e escuros. Logo ele que tinha medo de alma.
Tempos depois uma surpresa, a mãe convidou-o para comprar novos fatos na João Alfredo (essas roupas brancas tão sem graça!) mas, em vez do alfaiate, abriu-lhe a porta de um consultório todo equipado, até atendente vestida de enfermeira, uma senhora de meia-idade para previnir tentações e intimidades.
A fama do doutorzinho correu pelos campos de Cachoeira e de lá pelos gerais do Marajó. E não tinha velho fazendeiro ou viúva de, que não viesse resmungar suas mazelas aos seus ouvidos.
Cada vez que a atendende anunciava um nome daqueles com muitas cabeças correndo no pasto, ele sentia um tremor. Não tinha sido aplicado, passava só na rabeira, as vezes pela interferência da mãe que cultivara muito bem a memória do finado coronel marajoara. Sua fama decoria mais do explendor do consultório, que além de sala de espera, tinha a sala de atendimento, sala de exame, e a sala de diagnóstico. Tinha quem inventasse doença só para conhecer seus esplendores, coisa de cinema.
Feita a anamnese, o momento do diagnótico uma tortura renovada. Saia da sala, consultava os livros, comparava os sintomas, fazia novas perguntas.
Finalmente arriscava e receitava algum placebo. Como a clientela pouco se importava com as receitas, queria mesmo era ver o consultório mandado vir de Paris, nem aviavam a receita.
Mas um dia o filho de um vaqueiro brabo, daqueles que derruba boi a unha e tem a alma tão dura quanto a própria vida que leva, apareceu com mal estranho:
-É maleita.
-É sezão.
-É quebranto!
-É paludismo!
-É mau olhado!
Chamaram as benzedeiras.
Chamaram as rezadeiras.
O menino só amofinava.
Foi aí que não se sabe da cabeça de quem saiu a ideia de vir para Belém consultar o doutorzinho.
Assim se fez, o pai a mãe e o menino atravessaram as infernais agonias da baía do Marajó. Desembarcam no Ver-o-Peso, rumam pra João Alfredo. Sobem sofregos e suados e ainda mareados as escadas de pau-amarelo e acapú e pedem uma consulta.
Minutos depois são levados à sala de atendimento onde o doutorzinho, em um fato de linho irlandês impecavelmente branco, os recebeu.
Estavam afogueados, cansados de tantas noites mal dormidas, mais aquela travessia infernal, entrar naquele mundo de espelhos e cristais era como um rapto, uma abdução. Ficaram mais confusos.
O menino ardia em febre e tremia calafrios tremendos, a pele pálida como uma vela.
O vaqueiro brabo, que deruba boi a unha e tinha a alma tão dura como a própria vida que leva, espantado naquele ambiente Caffè della Paix, formalizou-se e falou:
Doutorzinho, salve meu filho!
Doutorzinho pediu que a atendente de meia-idade que os levasse até a sala de exame, medio a temperatura:
- 41ºde febre, anote no prontuário.
Neste momento o menino teve uma crise de calafrios que quase cai no chão não fosse a prota intervenção da mãe.
-Ele é sempre desta cor?
-Não doutorzinho ele é moreno que nem nós, ele ficou pálido assim desde que adoeceu.
-Anote tez empalidecida.
Depois pegou a ficha e foi viver seu repetido tormento: dar o diagnóstico. Consultou livros, manuais de doenças tropicais, tudo leva a crer, era evidente, mas a tormenta da dúvida não lhe deixava. E se o menino morrer? E se o pai vier se vingar? E se o menino vier fazer de noite visagem? Consultou de novo todos os livros, os sintomas conferiam, não era possível que não fosse.
Ordenou à atendente de meia-idade que os conduzisse à sala de diagnóstico e partiu decidido:
- Eu tenho um palpite que que é malária
- Doutorzinho, paltite tenho eu que sou vaqueiro, o senhor tem que ter certeza.
Tudo isso pra dizer que eu tenho um palpite que se o Edmilson não ganhar no primeiro turno ele não voltará a subir as escadarias do palacete azul, como se dizia no tempo em que esta história aconteceu.
Ele ganhará uma parcela dos votos do Alfredo. Não creio que o PT o apoie formalmente, vai ficar na dele.
Enquanto o seu adversário, Zenaldo ou, estatisticamente ainda, Priante receberão os votos e o apoio de todos os demais, pois são todos da base do governo estadual.
Quem quiser diagnóstico, e não palpite, faça as contas.




